Mosteiro de Santa Clara:

da fundação à atualidade

 

mosteiro stclara

 

Canção da Rendilheira

 

Rendilheiras que teceis

As lindas rendas à mão

Eu dou-vos se vós quereis

Por almofada o coração.

 

Freiras de Santa Clara

Lindas monjas feiticeiras

Há restos da vossa graça

Na boca das rendilheiras.

(...) 1

 

Cunha Araújo     

 

O Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde foi fundado por D. Afonso Sanches (filho bastardo de D. Dinis) e sua esposa, D. Teresa Martins, pela carta régia de sete de Maio de 1318. Segundo Monsenhor José A. Ferreira, D. Afonso Sanches e D. Teresa Martins terão passado por Vila do Conde quando regressavam de uma romaria a S. Tiago de Compostela e, "ou por [devoção] imitação da Rainha Santa Isabel, que no ano anterior tinha fundado em Coimbra o Mosteiro de Santa Clara, ou por devoção e sympathia para com esta Ordem (...), edificou e dotou n'esta sua villa outro Mosteiro da mesma Ordem" 2. No entanto, parece que D. Dinis envolveu-se bastante na origem e proteção do dito Mosteiro, quanto mais não fosse para mostrar à Rainha D. Isabel a sua autoridade e poder. De facto, o auxílio prestado por D. Dinis ao seu filho bastardo foi precioso: a três de Janeiro de 1319, el-rei dispensa o Mosteiro de Vila do Conde do cumprimento de uma lei por ele mesmo decretada, lei essa que proibia aos Conventos adquirirem bens de raiz e ficarem com as heranças dos que neles entrassem 3. Por isso, o Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde foi uma das casas monásticas mais famosas entre as maiores e mais ricas da Península.

 

Os fundadores, na Carta de Fundação do Mosteiro (1318), afirmam que o Mosteiro se destinava a "molheres filhasdalgo pobres" 4. No entanto, não era totalmente excluída a entrada de fidalgas ricas, mas apenas quando o número das pobres não fosse suficiente. Se, por ventura, nem umas nem outras quisessem entrar, aceitar-se-iam outras mulheres, desde que fossem dotadas de virtude e bens, de modo a que "o mosteiro seja honrado e avantajado" 5. Contudo, o Mosteiro de Santa Clara foi predominantemente ocupado por elementos das famílias nobres das províncias do Norte de Portugal. Além disso, a riqueza do mosteiro provinha também dos impostos que cobrava sobre toda a circulação e pesca realizada no Rio Ave. O mosteiro exerceu, ainda, sobre a localidade, poder jurídico até ao reinado de D. João III 6.

 

Quanto ao edifício, verifica-se que há pouca documentação sobre o primitivo Mosteiro de Santa Clara: nada se sabe acerca do seu traçado inicial, nem do volume da sua construção. No entanto, segundo alguma informação de Joaquim Pacheco é possível avançar com uma reconstrução da primitiva Igreja 7. Tratar-se-ia de uma Igreja de uma só nave, com planta de cruz latina e abside poligonal. Talvez houvesse um claustro de arcos em ogiva. O estilo é gótico mas ainda com reminiscências do românico, visíveis pela existência de ameias, sólida silharia e arcos de volta perfeita, apesar de ter já uma rosácea florida, janelas ogivais e portas com arquivoltas assentes em colunas trabalhadas, aparentando estas últimas mais com o estilo gótico.

 

Com o decorrer dos anos, a Igreja foi sofrendo alterações. A primeira intervenção data de 1526, a pedido da abadessa D. Isabel de Castro. A vinda desta abadessa para o Mosteiro de Vila do Conde é bastante curiosa. D. Manuel I, pretendendo corrigir os costumes e moral das freiras, comunica ao Papa Leão X a necessidade de uma reforma: a temida "Observância", autorizada pela bula do Papa Leão X, em 1517. Algumas freiras de Vila do Conde, lideradas pela abadessa D. Joana de Meneses, manifestam o seu desagrado, sendo por isso transferidas para outros conventos. Em sua substituição chegam outras mais disciplinadas, vindas do Mosteiro de Beja. Entre estas estava D. Isabel de Castro, que viria a ser eleita como a nova abadessa.

 

A ação de D. Isabel de Castro foi bastante empreendedora: apercebendo-se que o coro existente ocupava muito espaço, inicia obras para o reduzir, compensando o espaço perdido com a construção de um novo coro, sobreposto ao já existente - o Coro Alto. O teto deste coro, todo forrado com caixotins de madeira do século XVI e decorado com diversos motivos, constitui um magnífico exemplar do trabalho de talha, encontrando-se ainda hoje em bom estado de conservação.

 

Foi também esta mesma abadessa que, observando o estado de degradação da galilé onde se encontravam os túmulos dos fundadores, ordenou a construção da Capela da Conceição, também conhecida por Capela dos Fundadores, num gracioso estilo manuelino, traduzindo o carácter desta vila piscatória.

 

Todos os túmulos que se encontravam na dita galilé foram transferidos para o interior da Igreja, ficando os dos fundadores – D. Afonso Sanches e D: Teresa Martins - na nova Capela da Conceição.

 

Figura jacente de D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis é representada por um cavaleiro com espada e a seus pés um leão, símbolo de força. A figura jacente de D. Teresa, neta do rei D. Sancho, está vestida de religiosa com um livro de orações e é representada com um cordeiro a seus pés, símbolo de humildade. Arcas tumulares laterais.

 

Depois destas obras de 1526, o Mosteiro parece ter caído em esquecimento, e as agressividades do tempo foram-se fazendo notar: o Mosteiro caiu em estado de degradação.

 

Em finais do século XVII há notícia de um pedido de auxílio, por parte da abadessa de então, D. Mariana de S. Paulo (1694 -1697), nas obras que considerava necessárias realizar para que o Mosteiro não ruísse. Esse pedido, dirigido ao Monarca, autoridades eclesiásticas e familiares das freiras internas, não obtém resultados. Seria preciso mais um século para que essas obras se concretizassem: a vinte e oito de Junho de 1778 começam os trabalhos de recuperação por iniciativa da abadessa D. Luísa de Azevedo. Ao que parece, estas obras foram subsidiadas por seu pai, Leonardo de Azevedo que, no ano anterior (1777), recebera duas valiosas heranças e, para satisfazer a vontade de sua filha e de mais duas que também eram internas do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, cedeu uma das heranças para financiar as obras. Mais do que recuperar o velho Mosteiro, é construído um edifício totalmente novo e monumental: foram gastos mais de setenta e cinco contos, elevada quantia para a época!

 

Trata-se de uma construção imponente, voltada para o rio Ave. A fachada sul tem um estilo clássico: está dividida em cinco corpos, separados por grossas pilastras, tendo cinquenta e uma janelas distribuídas pelos três andares do edifício. A parte central é rematada por um frontão decorado com um escudo e com as armas reais, sendo encabeçado por uma figura de Santa Clara à frente de um elefante, cujo marfim simboliza a pureza e castidade. Os acrotérios são decorados por grandes vasos. Este majestoso edifício ainda hoje marca a paisagem de Vila do Conde.

 

Estas obras foram várias vezes interrompidas. Com as invasões napoleónicas, as obras pararam, pois o Mosteiro teve de pagar um pesado imposto de guerra. Em 1816 os trabalhos são retomados, para serem novamente suspensos em 1825, com as revoluções liberais.

 

Com a vitória dos Liberais seguem-se medidas radicais que vão penalizar os mosteiros e conventos de Portugal. A 4 de Abril de 1861 (Regeneração) é emitida a Lei de Desamortização dos bens das freiras e igrejas. Muitos mosteiros caem na miséria e pobreza. O Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde possuía muitos bens que eram facilmente vendidos e a maior parte das internas eram filhas de ricas famílias do norte de Portugal. No entanto, essas vendas foram depauperando o espólio do mosteiro e à medida que as freiras faleciam os seus bens iam desaparecendo. Com a morte da última freira, D. Augusta do Nascimento (Meneses), a 21 de maio de 1893, o Mosteiro também se extinguia.

 

Em 1902 o Mosteiro foi transformado em Casa da Correção do Distrito do Porto, cujo nome foi alterado para "Escola Industrial da Missão dos Salesianos".

 

Não há notícia de nenhuma outra intervenção até 1929-32, altura em que a Direção dos Edifícios e Monumentos Nacionais decide restaurar o Mosteiro de Vila do Conde, inserindo-o num plano de recuperação e enaltecimento do "património artístico, histórico e espiritual da Nação" 8. Pela descrição feita por D. João de Castro 9 e por fotografias da época, o estado em que o Mosteiro se encontrava era lastimável. Eis como o referido autor descreve o estado em que a Igreja se encontrava:

 

"Exteriormente, em redor das paredes que formam a cruz latina da planta medieval, (...) tinham-se multiplicado ao acaso, sem nenhuma ordem ou escrúpulo estético, os mais variados, desairosos e grosseiros edifícios. Unidos, aglomerados de encontro às naves e à abside, dominavam a majestosa Igreja (...). Das numerosas construções acessórias naquele sítio acumuladas em diversas idades, pouco mais restava quando se iniciaram as obras da restauração, do que algumas ruínas quase informes e vários montes de pedras e caliça, que os destroços da vizinha casa do capítulo haviam avolumado. Ali também, em frente desta última, um arruinado lanço de arcos abatidos. (...) Muitas das janelas (...) que iluminavam o templo, tinham sido vandalicamente substituídas por desairosos janelões retangulares, ao gosto do século XVII. A tão violenta e generalizada proscrição escaparam apenas as da Capela dos Fundadores (...) porque um dos casebres construídos em redor do templo (...) ocultou completamente as elegantes janelas ali abertas no século XVI, tornando portanto inútil a sua substituição."10

 

Os jornais da época vão relatando o difícil avançar das obras:

"Foi reduzido a dois o número de operários que ainda se conservam nas obras do restauro da Egreja de Santa Clara e é de prever que só para princípios do próximo ano económico elas prossigam mais ativamente porque foi de facto de se ter esgotado verba orçamental que originou a quasi geral paralisação de agora. (...)"11

 

A intervenção realizada pela Direção dos Edifícios e Monumentos Nacionais acabou por se tornar alvo de fortes críticas, uma vez que, com o objetivo de recuperar a imagem original do primitivo edifício, acabou por destruir outras obras e intervenções de importante valor cultural realizadas ao longo dos séculos.

 

Durante anos o Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde foi perdendo o seu esplendor e, outrora um dos mais ricos da Península Ibérica, tornou-se um "conventinho pobre" 12.

 

Poema a Santa Clara

 

Estes ares

Dai-nos ventos regulares,

de feição.

Estes mares, estes ares

Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.

Se baixar a cerração,

Alumiai

Meus olhos na cerração.

 

Estes montes e horizontes

Clareai.

Santa Clara, no mau tempo

Sustentai

Nossas asas.

A salvo de árvores, casas,

E penedos, nossas asas

Governai.

Santa Clara, clareai.

 

Afastai

Todo risco.

Por amor de S. Francisco,

Vosso mestre, nosso pai,

Santa Clara, todo risco

Dissipai.

Santa Clara, clareai.

 

 

Autor Desconhecido

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

1) MIRANDA, Marta, "Vila do Conde - Cidades e Vilas de Portugal", Editorial Presença, 1998.

2) FERREIRA, Monsenhor José Augusto, " Vila do Conde e o seu Alfoz – Origem e Monumentos", p. 15.

3) Esta lei foi motivada por queixas de alguns ricos homens do reino a D. Dinis, acusando os Conventos de enriquecerem à custa das heranças recebidas dos que entravam nas Ordens e nelas morriam.

4) "Carta de Fundação do Mosteiro", de 1318, Arquivo Municipal de Vila do Conde.

5) Idem.

6) MIRANDA, Marta, "Cidades e Vilas de Portugal – Vila do Conde", Editorial Presença, Lisboa, 1998, p. 24.

7) "Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde", Nova Série, nº 11 (Junho/1993), pp. 37-40.

8) Boletim da Direção Geral do Edifícios e Monumentos Nacionais", nº 14, dezembro de 1938, p. 27.

9) Idem

10) O aqueduto - Monumento Nacional, Dec. 16-06-1910, DG 136 de 23 junho de 1910, incluído na Zona Especial de Proteção da Igreja de Santa Clara. Inicialmente formado por 999 arcos, com cerca de 4 Km, é o segundo aqueduto mais extenso de Portugal. Este canal artificial foi construído entre 1705 e 1714, desde o Convento de Santa Clara até à nascente (Terroso, Póvoa de Varzim), com o objetivo de abastecer de água o Mosteiro de forma regular através da sua arcatura. Cf. www.igespar.pt

11) "O Democrático", ano XVIII, nº 850, janeiro de 1931.

12) NEVES, Joaquim Pacheco, "O Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde", Edição da Câmara Municipal de Vila do Conde, 1982, p.131.

 

 

 
 

 

 
 
 
 

 

 

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Por
Valquíria Costa

 

 

 
 
 
 
 

 

 
 

 

 
Informações úteis:

 

Acesso:

Fechado.

 

Proteção:

Incluído na Zona Especial de Proteção da Igreja do Convento de Santa Clara.

 

 

 
 
 

 

 

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