José Régio

 

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Passavam as nove horas da noite de 17 de setembro de 1901, quando, na rua de Santo Amaro nasceu José Maria dos Reis Pereira, que todos conhecemos como José Régio. Filho de José Maria Pereira Sobrinho (1876-1957), ourives e homem ligado ao teatro, e de Maria da Conceição Reis Pereira (1876-1946). Era uma família burguesa típica da província. Apesar da simplicidade o contexto social em que Régio nasceu e foi criado teve uma importante influência no seu pensamento e, mais importante ainda, na sua escrita, como adiante desenvolveremos.

 

Foi na Escola da Meia-Laranja que fez a instrução primária (concluída em 1911, com a classificação de «óptimo»1), passando para o Instituto do Padre José Praça. Em 1918 frequentou a Escola Académica, do Porto, em regime de semi-internato.

 

De 1920 a 1926, cursou Filologia Românica em Coimbra, onde se licenciou em Filologia Românica (1925) com a tese "As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa". Foi neste período que nasceu, verdadeiramente, o poeta: a 25 de dezembro de 1921 publica no Jornal "A República", de Vila do Conde, utilizando o pseudónimo José Régio. Em 1928, terminada a licenciatura, voltou para o Norte, mais concretamente, para o Porto, onde lecionou Português e Francês, no Liceu Alexandre Herculano. Nesse ano, escreveu para os jornais "O Comércio do Porto", Seara Nova e o Diário de Notícias.

 

Em 1929 parte para Portalegre, onde é nomeado professor provisório e, nesse mesmo ano, sai a sua nomeação definitiva para o Liceu do Funchal. Mas é em Portalegre que se mantém até 1962, mesmo quando em 1930 é nomeado efetivo no Liceu de Chaves. A permuta com outro colega, manteve a trajetória de vida que hoje conhecemos.

 

Assim, de 1930 a 1966, o autor vive em Portalegre, onde leciona no liceu Nacional, de que se tornará patrono anos mais tarde. A par da atividade docente escreve e coleciona objetos de arte sacra, que mais tarde venderá à Câmara Municipal de Portalegre. Em 1966, o autor reforma-se e regressa a Vila do Conde, onde vinha nas férias do Verão para visitar a família e os amigos, como Manuel de Oliveira, Agustina Bessa Luís, que se reuniam em tertúlias no Diana Bar, na Póvoa de Varzim.

 

Fumador inveterado, a 9 de outubro de 1969 sofre de enfarte, vindo a morrer a 17 de dezembro desse mesmo ano.

 

O aspeto mais importante da vida literária de José Régio, e que o destacou no panorama literário nacional, foi a liderança da segunda geração do modernismo português. A tese de licenciatura de Régio, intitulada As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa, que versava sobre a primeira geração de poetas modernistas, até então desconhecidos e/ou de muita má fama, abordando a poesia de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro. Como figura tutelar da Presença, publicada durante treze anos, José Régio tornou-se no principal vulto desta corrente artística, que fundou com Branquinho da Fonseca e Gaspar Simões.

 

A imagem que passa de Régio era a de um homem de dualidades, isto é dividido e, por isso, angustiado: se por um lado gostava de Portalegre e não sabia "que me prendia a esta terra", por outro suspira pelo ar de Vila do Conde; se por um lado tinha um inegável lado religioso, latente nas suas obras, por outro recusava ortodoxias e credos. Joaquim Pacheco Neves não acreditava nesta dualidade. Para este autor existia um "Régio dominado senão por angústias que o crucificavam às situações criadas por uma hipersensibilidade doentia, diminuído por circunstâncias que pesavam na sua organização física e o deixavam perfeitamente incapaz de superar as depressões em que caía."2 O tema religioso é uma constante na obra de Régio. Agustina Bessa Luís, sua amiga e companheira de tertúlia das épocas estivais, afirmava que "Deus e Régio era uma aliança perseverante, feita de pequenas brigas, como de pai e filho que se admoestam sem deixar a mão um do outro"3. Como se explica, então esta dicotomia entre Deus e o Diabo que pautou a existência deste poeta?

 

Esta luta constante entre Deus e o Diabo que nos parece ser o cerne da obra de Régio, reporta-nos à sua família de Vila do Conde. E esta formação familiar, como qualquer outra de província, exerceu uma grande influência sobre o autor, profundamente marcado pela religiosidade da época. Nesta balança em que se pesam Deus e o Diabo, temos um lado o Avô e a tia Libânia.

 

O avô era um homem profundamente religioso, monárquico e condenava a paixão que o pai de Régio sentia pelo teatro (apesar de este ter sido ensaiador no C.C.O.)4. A outra figura marcada pela religião fora a tia Libânia: Régio descreve-a como uma figura matriarcal (apesar de se ter mantido solteira até à sua morte em 1928). Foi um irmão, brasileiro de torna-viagem, muito rico, que não se cansava de repetir o pecado que era pertencer à Maçonaria. Em a "Confissão Dum homem Religioso", Régio não esconde a sua surpresa, quando relata o que descobrira numa velha papeleira "O tio brasileiro, o grande homem tão respeitado duma família tão católica, apostólica, romana, (...) pertencera à maçonaria!5, o que não deixa de ser uma paradoxal figura do hipocrisia social da época. Mas regressemos à figura da madrinha Libânia, herdeira deste maçom encapotado. Régio descreve-a como o centro das atenções famíliares, poder que Régio considerava, de uma forma primária, advir da fortuna que possuía. Prontamente percebeu que o dinheiro não fazia tudo: o autoritarismo, a austeridade e o capricho "atraíam uma espécie de timorato respeito"6. Libânia era, também ela, profundamente religiosa, e só saía para ir à missa, subindo a calçada de S. Francisco, arrastando consigo toda a reverente família. E esta, claro, acorria pressurosa aos caprichos da madrinha, na esperança de que deles se recordasse no testamento final. Em casa, lembrava Régio, o ambiente era todo ele religioso, com o avô a presidir, qual sacerdote, às orações do mês de Maria, de que gostava7.

 

Quem contrabalançava este ambiente religioso, beatífico até, e contrabalançava o peso de Deus na precoce vida de Régio?

 

Uma dessas figuras era a mãe, embora não tanto como os tios António Maria Pereira Júnior, tio e padrinho de Régio, e Apolinário dos Reis. O primeiro fora estudar para Coimbra, onde se fizera republicano. O segundo era, na tradição familiar pelo lado materno, Comandante da Marinha Mercante. Ambos muito "excêntricos" e "ateus, ou agnósticos, ou criticistas ou humoristas perante os assuntos religiosos"8 A mãe, por seu turno, também ela era crítica em assuntos religiosos, embora fosse religiosa e a sua religiosidade, considerava Régio, não andasse longe das formas observadas pelas criadas ou pelos demais famíliares8.

 

No dia 23 de dezembro de 1969, os sinos tocaram a finados. Tocaram por José Régio. Vila do Conde chorava a morte do seu mais ilustre filho. A câmara ardente realizou-se na casa do poeta, desfilando por elas largas centenas de pessoas de Vila do Conde, Póvoa e Porto. O comércio fechou à hora do funeral "no qual se incorporou todo o povo da vila". A mortalha foi a bandeira de Vila do Conde e a ele, além dos milhares de anónimos, nomes das artes como Manuel de Oliveira e Agustina Bessa Luís; António de Sousa Pereira, primo do autor, vinha em nome do Dr. Mário Soares, então exilado político em S. Tomé, o que o relaciona com a oposição democrática ao regime salazarista.

 

Régio, foi, pois, o mais ilustre filho que Vila do Conde viu nascer. O poeta imortalizou a "Vila do Conde espraiada entre pinhais, rio e mar". Por considerar, este homem como seu filho dileto, Vila do Conde fê-lo patrono da mais antiga das suas Escolas Secundárias e da Biblioteca Municipal. Deu o seu nome à avenida junto à Casa Museu e a uma praça onde foi erigida a sua estátua contemplando o monte que tanto amava.

 

De Régio ecoam, para sempre, as palavras do Cântico Negro:

 

«Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

Sei que não vou por aí!» 

 

 

 

 
 
 
 

 

 

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