"UM OLHAR SOBRE VILA DO CONDE"

POR ALEXANDRE MAIA

 

 

Alexandre MaiaFalar de Vila do Conde para mim é recordar todos os bons momentos que esta Cidade me proporcionou: nasci, cresci e casei nesta terra à beira mar plantada.

 

Começando pela minha infância, as recordações são vastas. Lembro-me perfeitamente das festas de verão no jardim em frente à minha casa; começava com o São João, com os carrocéis estacionados praticamente em frente à janela do meu quarto, a perdição para qualquer criança, seguido da Feira de Artesanato, que tinha um lado fascinante para mim enquanto criança, que se reflectia em ver todos aqueles brinquedos, toda aquela imensidão de pessoas a percorrer os stands era realmente delicioso; no entanto, com os primeiros anos da adolescência, esse fascínio desapareceu, uma vez que a feira roubava o meu espaço das corridas de bicicleta com os meus primos, deixando-nos apenas alguns dias no final do verão para usufruir do jardim.

 

Jardins da Avenida Júlio Graça e Igreja Nossa Senhora do Desterro no nevão de 1987

Mas há coisas que nos marcam para sempre, e uma delas aconteceu na minha infância: neve em Vila do Conde! Lembro-me muito bem desse dia, estava na escola dos correios na sala da Professora Amélia, quando alguém gritou de repente “está a nevar”, e todos fomos a correr para a janela para ver a neve, escusado será dizer que nem 5 minutos tinham passado e já toda a turma estava no recreio a correr e a tentar fazer bolas de neve, foi um dia inesquecível, que vou recordando com as fotografias que o meu pai tirou nesse dia.

 

Já na minha juventude, fui um dos poucos felizardos que teve a oportunidade de conhecer as maravilhas do nosso concelho. Tive a sorte de ter um pai que conhece o concelho como ninguém e de ter conhecido o Dr. Paulo Costa Pinto, que na altura me convidou para ingressar no seu projeto, tornando-me administrador da Associação de Proteção do Património Arqueológico de Vila do Conde, e, anos mais tarde, o seu presidente.

 

Com a companhia dos dois, percorri os recantos das freguesias do nosso concelho à procura de vestígios arqueológicos referidos em documentos antigos e esquecidos por muitos. Destaco a mamoa de Vilar e o Castro de São Paio, onde passei alguns dos meus verões em escavações perto de uma das mais belas praias do nosso concelho.

 

Conhecer aqueles lugares e a história do nosso passado, ter tido a oportunidade de participar em escavações no Castro de São Paio e intervenções arqueológicas que ajudaram a preservar a nossa história no Castro de Bagunte e na mamoa de Vilar são experiências memoráveis, principalmente quando vemos um dos nossos achados exposto na Exposição Permanente do Museu de Vila Do Conde, sinal de que, de facto, contribuímos para a descoberta da história do nosso concelho!

 

Não foi só a arqueologia que me fez percorrer o nosso concelho; como repórter fotográfico do Jornal de Vila do Conde tive a oportunidade de conhecer as festas e romarias das nossas freguesias, e estar presente em muitos dos eventos únicos que ocorreram em Vila do Conde. Lembro-me como se fosse hoje, os dias em que estive no backstage do Festival da Juventude, lado a lado com alguns dos grandes artistas portugueses e internacionais, como o Jorge palma, os Silence 4, os The Weasel, os Mind da Gap e o grande o Gabriel O Pensador, o grande rapper da altura.

 

O desporto também teve um papel predominante no meu crescimento. Passei por todos os grandes clubes de Vila do Conde: Rio Ave, Ginásio, Fluvial e José Régio. Recordo sempre com saudade os tempos que passei na canoagem, enfrentando o Rio Ave (que coragem), e tendo como treinador um grande atleta português, o vilacondense José Garcia. No entanto, foi o basquetebol do Clube José Régio que me apaixonou, e foi a este clube que pertenci durante largos anos, até deixar a cidade para ir para a universidade, em Viana do Castelo.

 

Olhando para a cidade onde cresci, relembro o que desapareceu e que marcou a nossa cidade durante anos e que ficará para sempre na memória de todos os que viram e assistiram aos bota abaixo nos antigos estaleiros navais do mestre Samuel, que eram situados na atual marina. Passar naquela zona na altura era como olhar para gigantes, ver aquelas estruturas a ganhar forma e a crescer, com os trabalhadores pendurados a planar, o cheiro maravilhoso da madeira que pairava no ar e a magia de ver os barcos a deslizar e a entrar no rio, é uma sensação que só os que o presenciaram conseguem compreender, assim como as risadas quando a madrinha não conseguia partir a garrafa de champanhe no casco dos barcos.

 

Adoro percorrer a nossa cidade, passear nas ruas e nas vielas, conhecer os recantos que esta esconde e as maravilhas que contem, embora muitas estejam ao abandono.

 

Admirar o pôr do sol nas nossas praias é mágico, é algo que sempre me fascinou. Adoro calçar os meus patins e percorrer a marginal ao final da tarde, sentar no muro e ficar ali à espera daquele momento em que o sol mergulha no oceano.

 

Andar a pé pela nossa cidade é cada vez mais, para mim, um momento relaxante e de prazer, principalmente com uma boa companhia, a minha mulher; adoramos passear pela zona ribeirinha nas noites quentes de verão, e ver os restaurantes apinhados de gente, sentar numa esplanada e simplesmente ficar ali a contemplar a paisagem e as pessoas a passar, enquadrados neste tão belo cenário que é Vila do Conde.

 

“(...)

O lugar onde o coração se esconde

é o novo passado a ida pra o liceu

Mas onde fica e como é que se chama

a terra do crepúsculo de algodão em rama

das muitas procissões dos contra-luz no bar

da surpresa violenta desse sempre renovado mar?

O lugar onde o coração se esconde

e a mulher eterna tem a luz na fronte

fica no norte e é Vila do Conde”

Ruy Belo, Homem de Palavra[s], 1970

 
 
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Março / Abril 2014

 

 
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