Ser Diferente, Ser Especial, Simplesmente Ser!

Atualmente a sociedade vive mudanças profundas, o paradigma social que conhecemos desde o 25 de Abril está a ser reequacionado e os que mais perdem são os mais vulneráveis.

 

Ser Diferente

 

Desde o meu ano de estágio que trabalho com crianças com necessidades educativas especiais, em dez anos verificaram-se grandes mudanças principalmente na legislação, na linguagem aplicada, e nos benefícios das crianças com necessidades educativas especiais permanentes. Turmas cada vez maiores não ajudam o processo de integração e o desenvolvimento destas crianças. Tive casos em que numa turma de vinte e oito alunos dois tinham necessidades educativas especiais. E o que são alunos com necessidades educativas especiais permanentes? São alunos que apresentam limitações significativas ao nível da atividade e participação, num ou vários domínios da vida, decorrentes de alterações funcionais e estruturais de carater permanente, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, da linguagem, de mobilidade, de autonomia, do relacionamento interpessoal e da participação social.

 

O trabalho do professor torna-se cada vez mais difícil, é difícil sentirmos que passamos a maior parte do nosso tempo de trabalho e pessoal dedicados a papéis, preenchimento de relatórios, em reuniões, numa burocracia infindável, e o tempo é cada vez mais escasso para preparar as aulas e criarmos atividades específicas para os alunos com mais dificuldades. Estes alunos exigem intervenções bastante individualizadas, cada caso é um caso, cada aluno é um aluno, é o Pedro ou a Inês, é a Sara ou o Sérgio, é uma pessoa e não apenas um número! É um sentimento de impotência avassaladora, já não temos tempo para os nossos alunos, nem para a nossa família. Cada vez mais a sociedade e sucessivos governos desvaloriza o nosso papel na sociedade. Mas apesar de todas as vicissitudes aqueles que ainda vão resistindo ao avassalador despedimento coletivo de professores que atualmente se verifica continuam a voltar as suas atenções para as crianças mais vulneráveis, é uma cruzada diária que travámos juntamente com Professores do Ensino Especial, Psicólogos, Assistentes Sociais, Sociólogos. As pequenas vitórias e desilusões das crianças com necessidades educativas são também as nossas vitórias e desilusões, o esforço é coletivo, as crianças de hoje são os adultos de amanhã e é isso que nos guia e não nos deixa desistir!

 

A História da Humanidade está marcada pelo estigma da diferença, na Grécia e Roma Antigas ou Esparta onde se cultivava "o corpo são em mente sã" muitas crianças com deficiência eram mortas à nascença. Durante o século XX houve outro grande retrocesso nos direitos das crianças e minorias com a execução de deficientes e crianças nas camaras de gás durante a 2ª Guerra Mundial. A Humanidade não pode esquecer o seu passado, nem apagá-lo com uma simples borracha, devemos ter respeito pelo passado coletivo e evitar que erros do passado se voltem a repetir! Nos momentos mais difíceis, esquecem-se valores, descuida-se os mais vulneráveis. Com a evolução da sociedade, a imagem da diferença tem sido alterada numa perspetiva mais integradora e positiva, embora esta mudança face à pessoa com deficiência tenha sido morosa, nem sempre feita de um modo linear e ainda hoje as pessoas com limitações físicas ou cognitivas sentem o estigma da diferença. As limitações marcam a pessoa na sua dimensão individual e social mas não na dimensão humana.

 

A 3 de dezembro, assinala-se o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, data promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), com a finalidade de sublinhar a necessidade de uma maior atenção por parte da sociedade civil e do poder político para os assuntos relacionados com a deficiência. Pretende-se também mobilizar a sociedade civil e as entidades com poder para se movimentarem em torno da defesa da dignidade, dos direitos e o bem-estar das pessoas. Entre estes direitos estão a integração das pessoas com deficiência, quer na vida política, social, económica e cultural.

 

O trabalho de Instituições como o MADI (Vila do Conde) ou o MAPADI (Póvoa de Varzim) mostra-se fulcral para a formação e integração das pessoas com limitações físicas e cognitivas.

 

Uma das histórias que mais me marcou durante o meu percurso profissional enquanto professora foi a do Rui. O Rui era um menino de 12 anos, com limitações físicas e motoras. O Rui era muito bom aluno, tinha excelentes notas às diferentes disciplinas, gostava de estudar e tinha uma cultura geral assinalável. O Rui dava altas gargalhadas quando o seu teste era o melhor da turma, o Rui sentia-se bem e feliz a estudar e junto dos professores. Mas as suas limitações físicas eram incompreendidas pelos seus colegas. O ano letivo acabou e eu mudei de escola, dois anos depois recebo a seguinte mensagem: "O Rui morreu, o seu coração parou". O Rui tinha 14 anos. Este texto é para ti, Rui, e para todas as crianças especiais e únicas como tu.

 

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